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Folklore não é pop é transformação!

A transição de Taylor Swift do pop para o indie folk e o impacto do storytelling na indústria musical.

Capa do álbum folklore, lançado em 2020. Foto: Taylor Swift Brasil.

Em 2020, o mundo inteiro vivia uma pandemia… nós fomos obrigados a ficar mais reclusos, longe de qualquer perigo de contágio de um vírus novo, o COVID-19, as pessoas se viram em um ambiente cheio de incertezas e muitos buscaram escapar do caos lá fora através da arte, procurando conhecer e criar histórias que pudessem dar uma reconexão pessoal e livre de qualquer influência do que estava acontecendo naquele momento. Foi neste período de isolação que a artista Taylor Swift quis se aventurar em escrever um álbum novo, com estética visual e musical totalmente diferente do que havia mostrado ao seu público há mais de 10 anos de carreira, então… em julho daquele ano, ela lançou de surpresa o álbum folklore, que foi fruto de uma mente ociosa com sede de criar outras narrativas.

Para quem estava acostumado com a estética pop da cantora, foi pego totalmente de surpresa com esse álbum no estilo indie folk, a produção foi elaborada por Jack Antonoff, que já trabalhou com ela anteriormente, Aaron Dessner (um dos membros da banda The National) e conta também com uma colaboração do cantor Bon Iver que tem uma ligação direta com o estilo do projeto. O mundo se encontrava em uma quarentena coletiva, “distância” era a palavra mais citada pelas autoridades, portanto Taylor e uma parte reduzida da sua equipe se isolaram em um chalé estúdio, chamado Long Pond Studio, no meio da floresta em Hudson Valley, em Nova York. Iver fez a sua participação remotamente, porque era o que podia naquele momento, em uma música de tom super intimista, “exile” que complementa a história que a Taylor conta no álbum.

Capa do documentário para o streaming Disney+ sobre a produção do álbum no Long Pond Studio. Reprodução: Dinsey Brasil.

E por falar nisso, a Taylor é uma contadora de histórias nata. Muito se fala do seu costume de escrever músicas sobre seus relacionamentos passados, fatos acontecidos na sua vida mas ao produzir folkore ela fez algo inusitado, escreveu uma narrativa totalmente nova, com personagens fictícios: Betty, James e Inez (a inspiração dos nomes veio de seus afilhados na vida real, filhos dos atores Ryan Reynolds e Blake Lively), compondo ali um triângulo amoroso intenso e cheio de reviravoltas, também temos uma narradora, ela aparece em algumas músicas contando o romance, mas conhecemos ela na música August, por isso os fãs a chamam carinhosamente de Augustine, ao contar a história deles a Taylor impõe sua visão lírica o que amplia a complexidade emocional dos integrantes em suas próprias narrativas não deixando de lado a oportunidade de entrelaçar acontecimentos da sua vida pessoal nas canções do álbum relacionando ao que estava acontecendo com os seus personagens que acabara de criar, experiências de vida dela influenciaram na construção dos sentimentos dos protagonistas.

Seu lançamento foi muito bem recepcionado, é de praxe da artista soltar easter eggs para criar um hype antes de um possível lançamento, mas naquele 24 de julho, ela quis inovar, não havia tempo para possíveis enrolações, o “agora” era o mais importante para ela, então no mesmo dia em que ela mostrou a capa do álbum para o público, lançou horas depois o disco inteiro em todas as plataformas digitais juntamente com o clipe do single ‘cardigan’, o qual ela aparece trancada dentro de uma cabana com um piano mágico, representando o escapismo da realidade, o que remete aos momentos em que ela passou no Long Pond Studio produzindo novas histórias e desde aquele ano, esse álbum se tornou um símbolo de escape e reconexão pessoal para os fãs pela intensidade que cada música carrega em suas letras.

Folklore é marcado por sua sonoridade única, foi um projeto em que Taylor se encontrava em um terreno novo e conseguiu explorá-lo muito bem. Ela criou neste trabalho uma atmosfera bem contemplativa, com arranjos entre o piano e violão que contribuem com a construção emocional do ouvinte, é como se cada música representasse uma cena, em que através das canções formava-se um mosaico e de faixa a faixa era possível entender os desdobramentos não lineares da história dos personagens envolvidos, pelo ponto de vista de cada um e suas memórias construídas, o que dá margem para diversas interpretações já que dependendo de quem está narrando, as percepções para o público são subjetivas, não há um certo ou errado e sim personagens com sentimentos reais e que agem de acordo com o que sentem e pensam.

“Comecei a escrever histórias, não apenas sobre a minha vida, mas sobre pessoas que eu nunca conheci.”

Taylor Swift.


O disco venceu no ano seguinte o Grammy na categoria Album of The Year, garantindo a ela a 3ª estatueta do gramofone nessa mesma classificação e mais do que números ou prêmios, folklore representa uma mudança na percepção geral da artista. Se antes o nome e o trabalho de Taylor Swift eram frequentemente associados a narrativas autobiográficas diretas, aqui ela conseguiu se afirmar como uma contadora de histórias complexas, o que refletiu diretamente nas produções de seus álbuns seguintes, porque foi a partir da experiencia de criar esse projeto que ela passou a mudar a forma de compor suas canções, não se tratava mais de relatar acontecimentos de sua vida, mas explorar diversos pontos de perspectiva de histórias distintas através das suas experiencias pessoais, elevando a interpretação poética de sentimentos complexos, esse amadurecimento dela como artista foi muito notado e reverenciado. Por fim, foi um álbum que acolheu as pessoas em um período difícil, transformando silêncio em identificação. Até hoje, ele transcende porque suas histórias continuam vivas, abertas a novas interpretações a cada escuta.

Taylor Swift com Jack Antonoff e Aaron Dessner, produtores do álbum folklore, recebendo o Grammy de Álbum do Ano em 2021. Foto: Vogue – Música

Faixa a faixa:

  • the 1:  A faixa de abertura apresenta uma reflexão madura sobre um amor que não aconteceu como poderia. A narradora revisita o passado sem ressentimento, imaginando possibilidades alternativas e reconhecendo que nem todas as histórias estão destinadas a se concretizar, no caso Betty e James. Ao invés de dor intensa, há uma aceitação melancólica, marcada por curiosidade sobre os caminhos não vividos, estabelecendo desde o início o tom nostálgico e contemplativo do álbum. “The 1” é uma expressão idiomática sobre alguém considerado como a pessoa certa para passar o resto da vida mas, no caso da música, infelizmente não deu certo.  

  • cardigan: Nesta canção, podemos claramente ver a história fictícia criada pela Taylor e os fatos da vida dela se entrelaçando na canção. O nome cardigan é uma metáfora sobre algo que é muito usado e depois deixado de lado, o que remete ao relacionamento do James e Betty, mas no ponto de vista de Betty ela vê a relação hoje com outro olhar, sobre alguém que a fez cicatrizar todos os seus medos e quando se estava em ‘terreno seguro’, fez com que essas cicatrizes se abrissem novamente, o que é citado no trecho: “você desenhou estrelas em minhas cicatrizes, mas agora estou sangrando” e ‘’escolha uma garota e perca a certa’’, remetendo à fase em que estiveram em um triângulo amoroso e ele a trocou por outra e ela conclui afirmando que quando somos jovens, as pessoas em volta acham que não sabemos de nada, algo que a Taylor também passou na vida, sendo muito subestimada por terceiros.
  • the last great american dynasty: Nesta música, Taylor Swift narra a história de Rebekah Harkness, figura histórica conhecida por seu comportamento considerado excêntrico pela alta sociedade. A canção constrói um paralelo entre a forma como Rebekah com o seu estilo livre foi julgada e a própria experiência da artista com a mídia, sugerindo uma crítica à maneira como mulheres independentes são rotuladas. A narrativa mistura ironia e admiração e conecta com a vida pessoal da cantora, já que passou por críticas parecidas e coincidentemente comprou a casa que já pertenceu a Rebekah e hoje é a casa de verão da Taylor, onde ela costuma dar suas festas, assim como Rebekah gostava, a propriedade fica em Rhode Island numa costa solitária de frente ao mar.
  • exile (feat. Bon Iver): A música apresenta um diálogo entre duas perspectivas após o fim de um relacionamento, evidenciando a falha de comunicação entre o casal, no caso Betty e James, enquanto um lado se sente abandonado, o outro acredita que sempre deu sinais claros do desgaste da relação e nunca foi ouvido como deveria, por isso ela cita diversas vezes “eu dei tantos sinais” e ele diz que ela nunca deu esses sinais com clareza, porque nunca aprendeu a ler a mente dela. Essa dualidade revela como experiências compartilhadas podem ser interpretadas de maneiras completamente distintas, reforçando a ideia de que a verdade emocional nunca é única ou absoluta, o grande ponto dessa música é o coração partido pelo mal-entendido, tornando os dois na relação enfim exilados.
  • my tears ricochet: Com forte carga simbólica e pessoal, a música retrata uma relação marcada por traição e ressentimento profundo por uma pessoa muito próxima.  Aqui ela se coloca em uma posição quase fantasmagórica, observando alguém que a feriu até mesmo após o fim do vínculo. A canção sugere uma dor persistente, onde o rompimento não encerra o conflito, mas o transforma em algo contínuo, carregado de mágoa e memória. Taylor passou por um período delicado envolvendo os seus trabalhos, essa música retrata bem isso, ela se sentiu traída por uma das pessoas em que mais confiou, se sentiu passada para trás em uma relação que a fez dar tudo de si e no fim, quem saiu perdendo foi ela. Aqui relacionamos o fato de suas masters terem sido vendidas a fazendo perder o direito do poder sobre o seu trabalho.
  •  mirrorball: Taylor já disse em diversas ocasiões que já se moldou muito para agradar os outros e é essa a proposta desta música, aqui ela diz que se reflete em diferentes versões de si mesma conforme o ambiente. A metáfora da “mirrorball” simboliza fragilidade e adaptação, revelando uma identidade construída a partir da necessidade de aceitação. A música expõe a vulnerabilidade de quem vive para corresponder às expectativas alheias, como os artistas… uma “mirrorball” apenas brilha daquela forma porque há vários pedaços de espelhos quebrados e é como tratamos as dores dos nossos artistas, como algo bonito para o nosso entretenimento, quanto pior a situação a qual ele passou e a transformou em arte, mais excitados de emoção ficamos, ela cita na canção, “eu nunca fui natural, tudo o que eu faço é tentar, tentar e tentar” e que continuará tentando para que continuemos olhando em sua direção, mesmo que isso implique se fragmentar mais internamente.
  • seven: A canção resgata uma memória de infância marcada por inocência e sensibilidade. A narradora relembra uma amizade e sugere, de forma sutil, que a outra criança vivia em um ambiente difícil. No entanto, essa percepção é filtrada pela ingenuidade infantil, que tenta compreender a dor através da imaginação. A música aborda a pureza da infância e a forma como experiências difíceis são interpretadas nesse período. 
  • august: Parte do triângulo amoroso do álbum, a música apresenta a perspectiva de Augustine, que vive um romance de verão intenso, porém efêmero. A narrativa é marcada por nostalgia e pela consciência tardia de que o relacionamento não tinha a mesma importância para ambos. A canção transforma esse amor passageiro em uma memória significativa, ainda que carregada de frustração e ilusão.
  •  this is me trying: Nesta faixa, do ponto de vista de Betty assume suas falhas e demonstra esforço para seguir em frente, mesmo diante de dificuldades internas. A música aborda temas como frustração pessoal, expectativas não correspondidas e o peso do fracasso. Ao admitir suas limitações, a personagem revela vulnerabilidade, destacando que, muitas vezes, o simples ato de tentar já representa um avanço significativo, mas que espera que esse esforço seja validado de alguma forma, ela cita isso no trecho: “só quero que você saiba que (essas falhas) sou eu tentando e pelo menos estou tentando”.
  • illicit affairs: A música retrata um relacionamento secreto que começa com intensidade, mas gradualmente se desgasta. A narrativa expõe a superficialidade e o custo emocional desse tipo de envolvimento, especialmente para quem se envolve mais profundamente. Com o tempo, o que parecia excitante se transforma em dor e perda de identidade, revelando as consequências de relações construídas na ocultação e para ela é frustrante lidar com tudo isso.
  • invisble string: Em contraste com outras faixas mais melancólicas, esta música apresenta uma visão otimista sobre o amor. A narradora sugere que eventos aparentemente aleatórios estão conectados por uma “linha invisível” que une duas pessoas destinadas a se encontrar, é uma crença de que o que é para ser seu, será, só precisa encontrar o caminho até você. A canção explora a ideia de destino, reinterpretando o passado como uma sequência de acontecimentos que levaram ao presente.
  • mad woman: A faixa aborda a forma como mulheres são frequentemente provocadas e, ao reagirem, rotuladas como irracionais ou “loucas”. A canção expõe um ciclo de manipulação e julgamento, criticando estruturas sociais que deslegitimam a raiva feminina. A música transforma essa indignação em um posicionamento consciente, revelando a lucidez por trás daquilo que é frequentemente desqualificado.
  •  epiphany: A canção conecta duas realidades distintas: soldados em guerra e profissionais de saúde em situações extremas. Ambas as narrativas compartilham um sentimento de exaustão e impotência diante do sofrimento humano. A música sugere que, em momentos de crise, a busca por sentido ou clareza nem sempre encontra resposta, destacando o peso emocional dessas experiências. Seu avô paterno foi uma de suas inspirações para a composição da música, ele lutou na Segunda Guerra Mundial, especificamente nas Batalhas de Guadalcanal que foi considerada uma das piores batalhas daquele período. Ela e sua família ao realizar pesquisas sobre o passado vivido pelo seu avô, não puderam descrever em palavras os horrores que ele poderia ter vivenciado e sentido sendo uma pessoa tão boa, lutando pelo bem. Então esse fato pessoal, ela relacionou ao momento em que estávamos vivendo no ano de 2020, em que equipes de saúde deram o seu máximo para salvar vidas em um ”cenário de guerra’’ contra o vírus, essa canção em específico trouxe uma conexão pessoal em um período difícil no qual todos estavam compartilhando.
  • betty: Outra parte do triângulo amoroso, a música apresenta a perspectiva de James, que tenta pedir desculpas após cometer um erro. Aqui ele revela imaturidade e uma tentativa de reconciliação que não necessariamente assume total responsabilidade da parte dele. A ambiguidade da canção permite questionar a sinceridade do personagem, deixando em aberto o desfecho da história.
  • peace: Nesta faixa, James oferece uma declaração de amor honesta, reconhecendo que, apesar do sentimento profundo, talvez não consiga proporcionar estabilidade ao outro. A música aborda a tensão entre amar alguém e lidar com as próprias limitações, sugerindo que o amor nem sempre é suficiente para garantir segurança emocional por mais que tenha tido esforço para dar certo, no fim nada se encaixa quando o sentimento não está focado apenas em uma pessoa.
  •  hoax: Aqui encerramos o álbum, a música apresenta uma relação marcada por dor, mas também por permanência. A narradora, Betty, reconhece o sofrimento envolvido, mas ainda se mantém ligada a esse vínculo. A canção sintetiza a complexidade emocional presente em todo o álbum, mostrando que amor e sofrimento podem coexistir de maneira contraditória.

Conclui-se que a história não é linear e a cada faixa seguinte é como se fosse uma peça faltante no quebra-cabeça de possíveis acontecimentos e sentimentos entre os envolvidos. O storytelling construído no álbum, faz o ouvinte ficar muito envolvido e esse é o ponto-chave de folklore.

Referências Bibliográficas:

LIVRO: TAYLOR SWIFT: Um diário swiftie, (pág: 84;97)

ÁLBUM: folklore, Taylor Swift, (2020).

Mídias Sociais: Youtube, Instagram.

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